30.12.08

Islândia à beira do êxodo

No porto de contentores de Reiquejavique há uma ilha de automóveis abandonados. O frio, a humidade, o sal do mar ainda não os marcou porque o seu desamparo é recente, embora se adivinhe que ali continuarão no futuro. Muitas centenas de reluzentes SUV Range Rover foram apanhadas pela súbita ruína financeira islandesa e perderam os compradores no pequeno país que no final do Verão ainda era exemplo de bem-estar financeiro.
O colapso da coroa islandesa depois da nacionalização dos três principais bancos do país em Outubro devolveu os islandeses à sua sina de sofredores da qual se tinham parcialmente esquecido com a recente bonança capitalista.
“Nestes últimos anos, o dinheiro tem sido rei na Islândia. As pessoas de sucesso eram aquelas que estavam a ganhar muito dinheiro”, contava recentemente o sociólogo Thorbjorn Broddason num artigo publicado pelo site da Forbes.
Os islandeses tinham uma das maiores taxas de detentores de SUV Range Rover per capita do mundo e preparavam-se para construir um edifício faraónico em Reiquejavique, uma sala de ópera para disputar em beleza e simbologia o lugar da Ópera de Sidney aos olhos do mundo. O estaleiro está hoje tão abandonado como os Range Rover no porto.
O país que nos anos 80 teve uma taxa de inflação de 85 por cento, que durante a maior parte da sua existência, desde que se tornou independente da Dinamarca em 1944, dependeu da pesca do bacalhau, de repente transformara-se num exportador de bens financeiros: em 2007, o Kaupthing, o Landsbanki e o Glitnir, os três maiores bancos islandeses, emprestaram o equivalente a nove vezes o tamanho da economia da ilha.
O colapso financeiro arrastou a sociedade islandesa encosta abaixo. A taxa de desemprego aumenta a passos largos e ninguém sabe onde irá parar. De Outubro para Novembro saltou da estável média de 1,9 por cento dos últimos três anos para 3,3 por cento e vai em crescendo – as previsões oficiais são de que atingirá sete por cento no final de Janeiro. O Departamento de Trabalho islandês divulgou este mês que a economia está a perder 260 empregos por semana.
Dos seus 320 mil habitantes, 30 por cento sonha agora com abandonar o país e procurar emprego noutro lado, de acordo com uma sondagem publicada em Novembro. Segundo outra sondagem, cerca de metade da população entre os 18 e 24 anos está desencantada com as perspectivas e também quer partir.
No mês em que comemora 90 anos da sua autonomia depois de ter sido colónia durante quase sete séculos, primeiro da Noruega (1262-1380) e a seguir da Dinamarca, os islandeses parecem prestes a enfrentar o maior êxodo de população desde que voltaram a ficar por sua conta.
Quem pensa em ficar tem tempos difíceis à sua frente. A inflação atingiu em Novembro 17,1 por cento, o valor mais alto dos últimos 18 anos. No terceiro trimestre, a economia contraiu-se 0,8 por cento em relação a igual período de 2007 – uma contracção de 3,4 por cento em relação ao segundo trimestre. O consumo interno decresceu 9,7 por cento em comparação com o mesmo período do ano passado. E estas ainda não são as piores notícias, essas estão reservadas para o quarto trimestre e para 2009, dizem os analistas.
O Governo islandês já chegou a acordo com o Fundo Monetário Internacional para um programa de empréstimo de 2,1 mil milhões de dólares (1,5 mil milhões de euros) a dois anos, o que implicará muitas restrições em termos de gastos públicos. Somado à contribuição dos países nórdicos, da Polónia, Reino Unido, Alemanha e Holanda, esse pacote poderá ascender a 10,2 mil milhões de dólares (7,5 mil milhões de euros).
O colapso da sua economia deverá precipitar a Islândia para o berço da União Europeia, onde no tempo das vacas gordas se mostrava muito renitente a entrar. O comissário europeu para o alargamento, Olli Rehn, afirmou que a “Comissão Europeia está a preparar-se mentalmente para a possibilidade de uma candidatura da Islândia (…) no princípio do próximo ano, (…) claramente há movimentos nesse sentido”. O primeiro-ministro islandês, Geir Haarde, já afirmou que o seu país pode começar a falar com a UE em breve. (foto de culz) publicado no Diário de Notícias de 29 de Dezembro.

Silêncio contra a corrupção

À frente do parlamento islandês (o Althing é o mais antigo do mundo, criado no ano de 950), onde no Verão se comemorou a primeira medalha conquistada pelo país nos Jogos Olímpicos (prata em andebol), hoje há manifestações todos os sábados exigindo a demissão do presidente do banco central, Vid Oddson. Numa das mais recentes os manifestantes enfrentaram em silêncio as baixas temperaturas durante 17 minutos, um minuto por cada ano em que o Partido Independentista está no poder, e as mulheres queimaram roupa para exigir o fim da corrupção que grassa no país. Apesar dos três principais bancos do país terem contribuído para o maior colapso financeiro da história do mundo, tendo em atenção a dimensão da economia Islandesa, as suas direcções foram mantidas nos cargos. As últimas grandes manifestações registadas no país tinham acontecido em 1949, contra a adesão do país à NATO.Turismo floresce sobre as ruínas

A crise financeira trouxe boas novas pelo menos para um sector da economia islandesa, o turismo. Com a coroa islandesa (krona) a valer hoje um terço daquilo que valia no Verão, tem-se registado um aumento de fluxo de turistas, nomeadamente dos países nórdicos e da Grã-Bretanha. A companhia aérea Icelandic Express anunciou que irá lançar um novo serviço de Londres (Gatwick) para Reiquejavique na Primavera com oito voos por semana a 69 libras (77 euros) o bilhete só de ida.

William Eggleston: Uma Estrututa de Sentir




Extractos do texto de Barry Schwabsky para a "The Nation" sobre a exposição de William Eggleston no Whitney Museum.

"After having spent some hours at the Whitney Museum among William Eggleston's photographs, I couldn't stop my mind's eye from framing each passing place as an interesting photograph. I was in a taxi on the way to the airport and thinking hard about walking straight to the duty-free shop to see what they had in the way of cameras."

"Calling his grand and gorgeous retrospective at the Whitney "Democratic Camera," Eggleston might seem to imply that anybody can do it. (The exhibition can be seen there through January 25; it then travels to the Haus der Kunst in Munich, where it will run from February 20 to May 17.)"

"Eggleston not only makes it look easy, as natural as opening your eyes, but seems to have come upon his art all at once. That's not to say he never made any apprentice work, only that it had almost nothing in it of what we'd now recognize as the Eggleston eye, and that while there was a transitional period between apprenticeship and fully achieved mastery, it happened in the blink of an eye."

"Eggleston has always denied being a "Southern artist" and rightly points out that he travels widely and has made many fine images elsewhere. His is certainly not the "Gothic" South of Faulkner and McCullers, whose photographic offspring might be Ralph Eugene Meatyard. But he's as Southern in his rejection of identification with the South as he is in his evident fascination with its landscape and the people who have made and marred it: they are all here, black and white, rich and poor, not as exemplars of any societal or political problem but all affected by a similar unease with their place."

"Eggleston is the opposite of a documentarian because he uproots his images from their anecdotal context. What is left after this removal? A structure of feeling."

9.12.08

Quebrada de Humahuaca (Parte 3)

A Quebrada segue uma das grandes rotas pré-colombianas, o Caminho do Inca, ao longo da garganta que o rio Grande, com a força da água do degelo andino, foi escavando na rocha até atingir, centena e meia de quilómetros mais a sul, o rio Leone. Calcula-se que há pelo menos dez mil anos se estabelecem por aqui comunidades ao longo do leito seco durante o Verão.
Foi um dia a principal rota entre o vice-reinado do Rio de La Plata e o Alto Peru. Mas quando os espanhóis chegaram no século XVI, já antes tinham vivido vários povos indígenas neste vale profundo de mais de 150 quilómetros de extensão que ascende dos 1200 aos 3500 metros acima do nível do mar. Os incas foram os últimos a instalar-se antes dos conquistadores e fizeram da Quebrada (garganta ou desfiladeiro em português) parte da sua província do sul, Kollasuyo.
Nessa subida até aos céus, com o carro a ronronar mansamente pelas encostas, a Quebrada vai-se alargando até se abrir maravilhada na Puna e a luz encandear na sua luminosidade sem smog. Abra Pampa faz de fronteira entre a Quebrada e a grande meseta andina, onde os rebanhos de lamas e alpacas circulam ordeiramente pela mão dos pastores ou simplesmente pastam à beira da estrada o pouco que a Puna tem para lhes dar.
A economia local muito depende da pastorícia de lamas e alpacas que servem de alimento e fornecem o pêlo para os tecidos locais. Só as vicunhas, cujo pêlo é mais delicado e, como tal, mais caro, vivem de forma selvagem e em todo o percurso apenas avistamos duas, mordiscando alimento na berma da estrada para os lados de La Quiaca, a cidade mais a norte da Argentina, feio entreposto comercial na fronteira com a Bolívia.
O turismo de massas ainda aqui não chegou e os investimentos procuram não chocar a natureza. Mesmo os hotéis mais luxuosos (com preços médios em versão europeia) procuram a comunhão com a paisagem em seu redor, em vez de sonharem com a velocidade do lucro. Por agora, reina a tranquilidade, como se o tempo não transcendesse e só os camiões que passam zunindo com mercadoria da e para a Bolívia dançam o ritmo (e ruído) da civilização moderna.
Situada quase a 3.500 metros acima do nível do mar, Abra Pampa recebeu o baptismo de Sibéria Argentina na sua fundação, a 30 de Agosto de 1883. E hoje debate-se com o grave problema ambiental da mina de prata e chumbo encerrada em 1985 e deixada abandonada a céu aberto na maior das negligências.
Entre as crianças que correm desabridas no final da manhã no parque infantil do centro da cidade de dez mil habitantes, existem aquelas que concentram no sangue níveis de chumbo que multiplicam por três o nível máximo permitido por lei.
Minas que quase punham em causa a continuação da Quebrada de Humahuaca como património mundial, se não fosse o governo de Jujuy ter recusado, no princípio de Agosto, o pedido de uma empresa para explorar urânio a céu aberto na zona de Tilcara, uma actividade extremamente poluente que causou indignação e veementes protestos públicos da população.
A história da Quebrada é uma história de tristezas marcadas pelo som dolente da quena, a flauta de cana andina, que apenas tem descanso em Fevereiro no Carnaval de Humahuaca. Durante nove dias de folia esquecem-se, por trás de máscaras coloridas e disfarces, as dores físicas e da alma ao ritmo do erke (corneta de três a cinco metros de comprimento), do charango (parente do cavaquinho) e do bombo.

8.12.08

A luz com que se pinta III


Ambroise Tézenas faz parte de uma agência de fotógrafos que se chama Think Pictures.

A luz com que se pinta II


Esta imagem pertence a outro ensaio, este sobre o petróleo na Venezuela de Hugo Chávez.

A luz com que se pinta


Ambroise Tézenas é um fotógrafo francês cuja fotografia é exactamente aquilo que a fotografia é na sua essência: pintar com luz. As de Tézenas são momentos irrepetíveis, imagens históricas porque dão a sensação que jamais poderá haver outro momento igual. Poderá haver outras fotos parecidas, jamais idênticas. O seu site pode ser acedido por aqui. A fotografia que encima este texto pertence a uma série sobre os 50 Anos da Revolução Cubana e foi encomendada pelo New York Times.

25.11.08

Quebrada de Humahuaca (Parte 2)




A Paleta do Pintor em Maimara e o Cerro das Sete Cores em Purmamarca são apenas dois exemplos maiores da capacidade natural dos minerais do vale para fazer do sol arco-íris do solo. Conjugado com o azul intenso do céu, qualquer jornada se transforma em experiência exclamativa.
A quem sobe pela Ruta 9, desde San Salvador de Jujuy, a capital provincial, e se ergue até às alturas nesse ronceiro serpentear de alcatrão, começa a faltar-lhes palavras à medida que avança e rapidamente se emudece em sinal de respeito. Curiosamente, a nós, que nos apanha uma tempestade de negras nuvens baixas, a subida tem menos interjeições e mais impacto: quando as nuvens partem e o sol aparece, a natureza salta à vista de uma forma tão intensa que precisamos de folha de coca para respirar.
As propriedades da folha de coca são conhecidas em toda a região andina desde pelo menos há 4.500 anos. Tanto os incas, como os aymaras e os quechuas sabiam que mastigar as folhas da erytroxylon coca, planta originária das terras altas dos Andes, lhes dava energia e servia de alimento.
A reputação trazida à coca pela cocaína (a transformação química da folha numa droga recreativa traficada para os Estados Unidos e a Europa) mudou até a forma dos habitantes da região a encararem. Se é certo que muitos locais continuam a transportar consigo habitualmente a chuspa (pequeno saco com folhas de coca), aos estrangeiros chegados de turistas resulta difícil comprar folhas sem que a transacção não traga problemas de consciência.
No centro de Humahuaca, junto à torre da igreja (de onde todos os dias, às 12, emerge a figura articulada de São Francisco de Solano) escondida por entre as árvores e os cactos (omnipresentes em toda a Quebrada e usados até como madeira), a senhora a quem nos dirigimos diz não ter um saquinho de folhas para experimentar. Apenas um embrulho a dez pesos (2,25 euros). Aceitamos, porque apesar do exagero, queremos evitar os males da altura (a pressão mais alta e ar rarefeito) e damos por nós com um quarto de quilo de folhas, bem condicionadas num pequeno “tijolo” feito de fita-cola e celofane verde. Um embrulho do género droga apreendida em rusgas policiais.
Reflexo condicionado a partir daí: passamos a olhar por cima do ombro cada vez que nos servimos de umas folhas para colocar como bola num dos cantos da boca. Estamos tão formatados na maneira de pensar que nem o facto de o consumo da folha de coca não ser ilegal na região nos impede de destruir o pacote antes de atravessarmos a Puna (a árida meseta andina) e cruzarmos a fronteira para o Chile em direcção ao deserto do Atacama.
(foto António Rodrigues)

Deus tem o número 10

O pavilhão de La Plata estava cheio a abarrotar de gente com cartazes, panos e faixas e bandeiras gigantes. Respirava-se um ambiente de campo de futebol, com os mesmos cânticos e igual entusiasmo. As luzes de palco reduziram-se e Andrés Ciro Martínez, o vocalista de Los Piojos, famosa banda de pop-rock argentino, trouxe para a boca de cena umas chuteiras Puma que pendurou no microfone.Não precisou de mais explicações para a multidão irromper num grito uníssono repetido: “Maradó, Maradó”. Em La Plata, nessa noite de 1999, não esteve o próprio, apenas as botas autografadas, as últimas usadas por Maradona como futebolista profissional e que este ofereceu a Andrés durante o primeiro concerto da digressão, em Buenos Aires, gravado ao vivo e editado em disco – “Ritual”.O “Maradó” dos Los Piojos não é a única canção inspirada no antigo jogador de futebol (até Charly García, figura iconoclástica do rock latino americano que foi capa da primeira edição da Rolling Stone argenina, já lhe dedicou um “Maradona Blues”), nem sequer a música é a única arte que procurou contar ou explicar o fenómeno deste homem transformado em deidade viva por força de tanto chutar uma bola.País tema na Feira de Livros de Frankfurt em 2010, a Argentina esqueceu-se, em primeira instância, de incluir Jorge Luis Borges no núcleo dessa, embora desde os primeiros esboços do programa se soubesse que haveria três grandes homenageados: Evita, Gardel e Maradona, os três maiores ícones da sua história. Sendo que Maradona é o único a entrar no panteão mitológico ainda vivo.“Ao contrário de muitos outros grandes, que se transformaram em lenda depois de deixarem a actividade”, escreveu Miguel Angel Bertotto, “Maradona tornou-se mito desde que o seu pé esquerdo – sem dúvida, o melhor pé esquerdo da história – começou a escrever os poemas mais maravilhosos que alguma vez se viram nos campos de futebol. Maradona foi mito no Argentinos Juniors – o estádio enchia-se com adeptos de outras equipas que iam apenas para o ver – e no Boca Juniors, foi mito no Nápoles – uma equipa que lutava para não descer e que converteu em campeão de tudo – e na selecção”.Continua Bertotto: “E foi mito porque inventou o golo dos sonhos. E foi mito porque os recém-nascidos começaram a chamar-se Diego. E foi mito porque dizer Maradona equivalia a dizer Argentina. Foi e é mito. E é porque dizer Maradona continua a equivaler a dizer Argentina. E é porque o seu apelido passou a ser o melhor dos adjectivos: é Gardel, dizia-se antes; é Maradona, define-se hoje”. Num documentário mais antigo que o de Kusturica, “Amando Maradona”, de Javier Vázquez, um jovem exibe a tatuagem que tem sobre o peito, na zona do coração. Está sentado à frente de um fundo negro. Puxa a camisola para cima com a mão esquerda para que se veja bem essa cabeça de Maradona parecida com a de Jesus Cristo. “Gosto mais dele que dos meus pais. Nem sabes o que sofro por ele”, confessa com os olhos marejados. “Olha como fico, até choro!”.Em “Amando Maradona” há muitas tatuagens. Uma que se repete é a de “DIOS” escrito com um número dez a substituir o “I” e o “O” da palavra. Em castelhano, a palavra deus e dez são parecidas: “Dios”/”Diez”. E Deus é Maradona ou Maradona é Deus, consoante a ordem de quem nasceu primeiro.As tatuagens são importantes, pois o ídolo/mito/Deus também as usa como afirmação política: a de Fidel Castro na perna, a das filhas nos antebraços e a mais famosa, a de Che Guevara, no ombro. Em Cuba, onde esteve a recuperar-se do excesso de peso e das maleitas provocadas pela cocaína, chegou a envergar uma paródia em formato T-shirt, onde o Che exibia a tatuagem de Diego no seu ombro.Stefano, o grande amigo napolitano de Maradona, também fez uma tatuagem do Che no ombro, baseada na mesma fotografia de Korda, fê-la, se calhar, mais em homenagem ao jogador que ao político, pois Maradona é em Nápoles também uma revolução política.Os napolitanos, desprezados nessa Itália de riqueza virada a Norte, vingaram-se de anos de humilhação com o pé esquerdo mágico desse outro condenado à nascença (ainda hoje em Villa Fiorito, o bairro de lata de Buenos Aires de onde vem, as casas são amontoados de madeira e chapa, os esgotos correm a céu aberto e os miúdos jogam descalços no mesmo campo onde Maradona deu os primeiros pontapés) que passara com mais penas que glória pela riqueza de Barcelona. Como diz a canção de Los Piojos: “Dicen que se escapó este mozo/del sueño de los sin jeta [cheta]/que a los poderosos reta [desafia]/y ataca a los más villanos/sin más armas en la mano/que un ‘diez’ en la camiseta”.Em “El Camino de San Diego”, filme de Carlos Sorín de 2006, um biscateiro pobre do interior da província de Missiones, no norte da Argentina, mete-se à estrada sem dinheiro para conseguir levar a Maradona, que se recupera numa clínica de Buenos Aires de um problema cardíaco, a raiz de uma árvore parecida com o seu ídolo.Tati, o protagonista, “acredita em Diego” porque este “nunca o deixou ficar mal e o seu êxito, para alguém que partilha a origem humilde, é quase uma vingança”, explica Sorín. Para o realizador, numa sociedade onde os perdedores têm poucas oportunidades, ídolos como Maradona “ocupam um vazio” porque “cumprem a função da esperança” e são, em si, uma forma particular de “democracia representativa”.Um herói desportivo capaz de exercer forte magnetismo sobre os seus conterrâneos, a ponto de o elegerem como metáfora dos êxitos e fracassos do seu país explica Gustavo Bernstein em “Maradona, la iconografia de la patria”. Quando Maradona “sozinho” venceu os ingleses nesse célebre jogo do Mundial de 86 – primeiro com a “mão de Deus” e depois com esse golo obra de arte/grito do Ipiranga à argentina em que parece ter fintado todos os ingleses do mundo – era uma nação inteira que se vingava desse desastre militar que foi a Guerra das Malvinas (1982).

(Texto publicado na Revista NS a 25 de Outubro)

17.11.08

Quebrada de Humahuaca (Parte 1)


Pedimos chá de coca e torradas num pequeno café vazio de gente e televisão ligada num estridente programa local. Como as outras casas de Tilcara, situada junto ao povoado indígena do Pucará de Tilcara, reconstruído para ser um museu a céu aberto, também aqui o edifício é térreo e as paredes são de adobe. O chá chega num ápice. Para o pão, a mulher ausenta-se a comprá-lo nas cercanias.
Apesar do boom turístico que a declaração da Quebrada de Humahuaca como Património Mundial da Humanidade em 2003 trouxe à região, a maioria das gentes daqui continua a viver na pobreza. E o pão para as torradas compra-se, assim parece, quando a necessidade o exige.
Há quem até assine petições a pedir que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) retire a denominação que apenas serve a uns quantos e não tem evitado que até as igrejas de Purmamarca e Tilcara sejam roubadas de alguns dos seus bens patrimoniais.
No Noroeste da Argentina, a 1.400 quilómetros de Buenos Aires, a Quebrada de Humahuaca é outro mundo argentino, aquele que liga o país com o seu passado indígena. E aquele onde se sente a maior predominância de pobres e desfavorecidos, numa província, Jujuy, de débeis indicadores sociais.
Conversa de séculos; habituados nesta zona a contar com pouco e a viver com menos, os indígenas mantêm à mão as folhas de coca que dão alento perante o ar rarefeito e cortam os desejos do estômago. E esperam que os turistas lhes tragam a riqueza que aqui se resume ao ar puro, à paisagem agreste e à explosão de cores dos cerros – parece impossível ter na terra tamanha concentração cromática num só lugar! (foto António Rodrigues)

14.11.08

A vida à sua vida


O pior nem são os sonhos mas olhar os outros sorrir como se nada fosse. Muito se escreveu sobre como tudo se alteraria para sempre, virado do avesso, tripas à mostra; acordados de um longo coma. Sensação extinta, ideia sem sentido. Pegou-se em armas, correu-se atrás dos índios - já não são índios, sem deixar de ser a mesma coisa - abriram-se os poços de sangue que queimaram sem cessar. O vermelho acalmou os mais impressionáveis e a vida prosseguiu como antes. A economia recolheu aos seus segredos. A política aos seus populismos. A vida à sua vida. (imagem do documentário de Werner Herzog "Lektionen in Finsternis")

Entre levezas e naufrágios

Qualquer barco possui em essência o milagre da leveza, mesmo ao afundar-se por excesso de peso. (foto António Rodrigues)

Juan Muñoz: Usual Incomun


Que figuras são estas que cochicham, escondidas à vista por trás de palavras que não ouvimos mas nos parecem estranhamente familiares? Figuras eternamente divertidas entre jogos e conversas? Lembram os guerreiros de terracota do imperador Qin na sua dicotomia permanente real/irreal, embora as figuras de Juan Muñoz careçam de imperador a exigir-lhes rectidão e assim se entreguem mais ao vício de parecerem humanos, sem que com essa proximidade percam para a evidência todas as características. Vemo-las próximas, ao alcance dos dedos e do pensamento, sem deixarmos de sentir que a total compreensão do que vemos está para lá do nosso alcance. Juan Muñoz construía mundos capazes de nos atrair para o seu interior, de prometer aos sentidos percepção pronta, só para nos desconcertar com a densidade de sentidos, com a impermeabilidade às conclusões prontas, com uma linguagem tão próxima e distante como o sussurro de uma floresta. Porque o conhecimento não hipoteca o mistério. Amiúde, adensa-o.

A retrospectiva está no Museu de Serralves até 18 de Janeiro. (foto António Rodrigues)

Sobre as possibilidades de conquista

E vieram povos bárbaros e outros mais instruídos
sanguinários e comedidos
mesquinhos de segredos incontáveis
e plenos de boas intenções
vieram com ofertas, propostas, ameaças
trouxeram ouro e incenso
(faltou a mirra, se calhar)
em conjunto ou por separado
e todos foram contidos
desbaratados por forças imprevistas
demónios escondidos
chuvas e ventos vindos de nenhum lado
e a ilha lá ficou
sob as nuvens eternas
soprada pelos ventos divinos
ao abrigo de todos os Genghis Khan
(foto António Rodrigues)

12.11.08

Em Pisa, com Marisa Monte sussurando

"Ò chuva vem me dizer
Se posso ir lá em cima pra derramar você
Ò chuva preste atenção
Se o povo lá de cima vive na solidão"
(foto António Rodrigues)

Sombras de Florença

Pensou na luz antes da luz
antes da noite
na noite antes da luz
pensou na noite mais escura
e sem caminhar gentilmente
acercou-se do rebordo do dia
para
sem perturbar a luz
ser apenas sombra
(foto António Rodrigues)