Foi um dia a principal rota entre o vice-reinado do Rio de La Plata e o Alto Peru. Mas quando os espanhóis chegaram no século XVI, já antes tinham vivido vários povos indígenas neste vale profundo de mais de 150 quilómetros de extensão que ascende dos 1200 aos 3500 metros acima do nível do mar. Os incas foram os últimos a instalar-se antes dos conquistadores e fizeram da Quebrada (garganta ou desfiladeiro em português) parte da sua província do sul, Kollasuyo.
Nessa subida até aos céus, com o carro a ronronar mansamente pelas encostas, a Quebrada vai-se alargando até se abrir maravilhada na Puna e a luz encandear na sua luminosidade sem smog. Abra Pampa faz de fronteira entre a Quebrada e a grande meseta andina, onde os rebanhos de lamas e alpacas circulam ordeiramente pela mão dos pastores ou simplesmente pastam à beira da estrada o pouco que a Puna tem para lhes dar.
A economia local muito depende da pastorícia de lamas e alpacas que servem de alimento e fornecem o pêlo para os tecidos locais. Só as vicunhas, cujo pêlo é mais delicado e, como tal, mais caro, vivem de forma selvagem e em todo o percurso apenas avistamos duas, mordiscando alimento na berma da estrada para os lados de La Quiaca, a cidade mais a norte da Argentina, feio entreposto comercial na fronteira com a Bolívia.
O turismo de massas ainda aqui não chegou e os investimentos procuram não chocar a natureza. Mesmo os hotéis mais luxuosos (com preços médios em versão europeia) procuram a comunhão com a paisagem em seu redor, em vez de sonharem com a velocidade do lucro. Por agora, reina a tranquilidade, como se o tempo não transcendesse e só os camiões que passam zunindo com mercadoria da e para a Bolívia dançam o ritmo (e ruído) da civilização moderna.
Situada quase a 3.500 metros acima do nível do mar, Abra Pampa recebeu o baptismo de Sibéria Argentina na sua fundação, a 30 de Agosto de 1883. E hoje debate-se com o grave problema ambiental da mina de prata e chumbo encerrada em 1985 e deixada abandonada a céu aberto na maior das negligências.
Entre as crianças que correm desabridas no final da manhã no parque infantil do centro da cidade de dez mil habitantes, existem aquelas que concentram no sangue níveis de chumbo que multiplicam por três o nível máximo permitido por lei.
Minas que quase punham em causa a continuação da Quebrada de Humahuaca como património mundial, se não fosse o governo de Jujuy ter recusado, no princípio de Agosto, o pedido de uma empresa para explorar urânio a céu aberto na zona de Tilcara, uma actividade extremamente poluente que causou indignação e veementes protestos públicos da população.
A história da Quebrada é uma história de tristezas marcadas pelo som dolente da quena, a flauta de cana andina, que apenas tem descanso em Fevereiro no Carnaval de Humahuaca. Durante nove dias de folia esquecem-se, por trás de máscaras coloridas e disfarces, as dores físicas e da alma ao ritmo do erke (corneta de três a cinco metros de comprimento), do charango (parente do cavaquinho) e do bombo.
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