No porto de contentores de Reiquejavique há uma ilha de automóveis abandonados. O frio, a humidade, o sal do mar ainda não os marcou porque o seu desamparo é recente, embora se adivinhe que ali continuarão no futuro. Muitas centenas de reluzentes SUV Range Rover foram apanhadas pela súbita ruína financeira islandesa e perderam os compradores no pequeno país que no final do Verão ainda era exemplo de bem-estar financeiro.O colapso da coroa islandesa depois da nacionalização dos três principais bancos do país em Outubro devolveu os islandeses à sua sina de sofredores da qual se tinham parcialmente esquecido com a recente bonança capitalista.
“Nestes últimos anos, o dinheiro tem sido rei na Islândia. As pessoas de sucesso eram aquelas que estavam a ganhar muito dinheiro”, contava recentemente o sociólogo Thorbjorn Broddason num artigo publicado pelo site da Forbes.
Os islandeses tinham uma das maiores taxas de detentores de SUV Range Rover per capita do mundo e preparavam-se para construir um edifício faraónico em Reiquejavique, uma sala de ópera para disputar em beleza e simbologia o lugar da Ópera de Sidney aos olhos do mundo. O estaleiro está hoje tão abandonado como os Range Rover no porto.
O país que nos anos 80 teve uma taxa de inflação de 85 por cento, que durante a maior parte da sua existência, desde que se tornou independente da Dinamarca em 1944, dependeu da pesca do bacalhau, de repente transformara-se num exportador de bens financeiros: em 2007, o Kaupthing, o Landsbanki e o Glitnir, os três maiores bancos islandeses, emprestaram o equivalente a nove vezes o tamanho da economia da ilha.
O colapso financeiro arrastou a sociedade islandesa encosta abaixo. A taxa de desemprego aumenta a passos largos e ninguém sabe onde irá parar. De Outubro para Novembro saltou da estável média de 1,9 por cento dos últimos três anos para 3,3 por cento e vai em crescendo – as previsões oficiais são de que atingirá sete por cento no final de Janeiro. O Departamento de Trabalho islandês divulgou este mês que a economia está a perder 260 empregos por semana.
Dos seus 320 mil habitantes, 30 por cento sonha agora com abandonar o país e procurar emprego noutro lado, de acordo com uma sondagem publicada em Novembro. Segundo outra sondagem, cerca de metade da população entre os 18 e 24 anos está desencantada com as perspectivas e também quer partir.
No mês em que comemora 90 anos da sua autonomia depois de ter sido colónia durante quase sete séculos, primeiro da Noruega (1262-1380) e a seguir da Dinamarca, os islandeses parecem prestes a enfrentar o maior êxodo de população desde que voltaram a ficar por sua conta.
Quem pensa em ficar tem tempos difíceis à sua frente. A inflação atingiu em Novembro 17,1 por cento, o valor mais alto dos últimos 18 anos. No terceiro trimestre, a economia contraiu-se 0,8 por cento em relação a igual período de 2007 – uma contracção de 3,4 por cento em relação ao segundo trimestre. O consumo interno decresceu 9,7 por cento em comparação com o mesmo período do ano passado. E estas ainda não são as piores notícias, essas estão reservadas para o quarto trimestre e para 2009, dizem os analistas.
O Governo islandês já chegou a acordo com o Fundo Monetário Internacional para um programa de empréstimo de 2,1 mil milhões de dólares (1,5 mil milhões de euros) a dois anos, o que implicará muitas restrições em termos de gastos públicos. Somado à contribuição dos países nórdicos, da Polónia, Reino Unido, Alemanha e Holanda, esse pacote poderá ascender a 10,2 mil milhões de dólares (7,5 mil milhões de euros).
O colapso da sua economia deverá precipitar a Islândia para o berço da União Europeia, onde no tempo das vacas gordas se mostrava muito renitente a entrar. O comissário europeu para o alargamento, Olli Rehn, afirmou que a “Comissão Europeia está a preparar-se mentalmente para a possibilidade de uma candidatura da Islândia (…) no princípio do próximo ano, (…) claramente há movimentos nesse sentido”. O primeiro-ministro islandês, Geir Haarde, já afirmou que o seu país pode começar a falar com a UE em breve. (foto de culz) publicado no Diário de Notícias de 29 de Dezembro.
À frente do parlamento islandês (o Althing é o mais antigo do mundo, criado no ano de 950), onde no Verão se comemorou a primeira medalha conquistada pelo país nos Jogos Olímpicos (prata em andebol), hoje há manifestações todos os sábados exigindo a demissão do presidente do banco central, Vid Oddson. Numa das mais recentes os manifestantes enfrentaram em silêncio as baixas temperaturas durante 17 minutos, um minuto por cada ano em que o Partido Independentista está no poder, e as mulheres queimaram roupa para exigir o fim da corrupção que grassa no país. Apesar dos três principais bancos do país terem contribuído para o maior colapso financeiro da história do mundo, tendo em atenção a dimensão da economia Islandesa, as suas direcções foram mantidas nos cargos. As últimas grandes manifestações registadas no país tinham acontecido em 1949, contra a adesão do país à NATO.
Turismo floresce sobre as ruínasA crise financeira trouxe boas novas pelo menos para um sector da economia islandesa, o turismo. Com a coroa islandesa (krona) a valer hoje um terço daquilo que valia no Verão, tem-se registado um aumento de fluxo de turistas, nomeadamente dos países nórdicos e da Grã-Bretanha. A companhia aérea Icelandic Express anunciou que irá lançar um novo serviço de Londres (Gatwick) para Reiquejavique na Primavera com oito voos por semana a 69 libras (77 euros) o bilhete só de ida.





