25.11.08

Quebrada de Humahuaca (Parte 2)




A Paleta do Pintor em Maimara e o Cerro das Sete Cores em Purmamarca são apenas dois exemplos maiores da capacidade natural dos minerais do vale para fazer do sol arco-íris do solo. Conjugado com o azul intenso do céu, qualquer jornada se transforma em experiência exclamativa.
A quem sobe pela Ruta 9, desde San Salvador de Jujuy, a capital provincial, e se ergue até às alturas nesse ronceiro serpentear de alcatrão, começa a faltar-lhes palavras à medida que avança e rapidamente se emudece em sinal de respeito. Curiosamente, a nós, que nos apanha uma tempestade de negras nuvens baixas, a subida tem menos interjeições e mais impacto: quando as nuvens partem e o sol aparece, a natureza salta à vista de uma forma tão intensa que precisamos de folha de coca para respirar.
As propriedades da folha de coca são conhecidas em toda a região andina desde pelo menos há 4.500 anos. Tanto os incas, como os aymaras e os quechuas sabiam que mastigar as folhas da erytroxylon coca, planta originária das terras altas dos Andes, lhes dava energia e servia de alimento.
A reputação trazida à coca pela cocaína (a transformação química da folha numa droga recreativa traficada para os Estados Unidos e a Europa) mudou até a forma dos habitantes da região a encararem. Se é certo que muitos locais continuam a transportar consigo habitualmente a chuspa (pequeno saco com folhas de coca), aos estrangeiros chegados de turistas resulta difícil comprar folhas sem que a transacção não traga problemas de consciência.
No centro de Humahuaca, junto à torre da igreja (de onde todos os dias, às 12, emerge a figura articulada de São Francisco de Solano) escondida por entre as árvores e os cactos (omnipresentes em toda a Quebrada e usados até como madeira), a senhora a quem nos dirigimos diz não ter um saquinho de folhas para experimentar. Apenas um embrulho a dez pesos (2,25 euros). Aceitamos, porque apesar do exagero, queremos evitar os males da altura (a pressão mais alta e ar rarefeito) e damos por nós com um quarto de quilo de folhas, bem condicionadas num pequeno “tijolo” feito de fita-cola e celofane verde. Um embrulho do género droga apreendida em rusgas policiais.
Reflexo condicionado a partir daí: passamos a olhar por cima do ombro cada vez que nos servimos de umas folhas para colocar como bola num dos cantos da boca. Estamos tão formatados na maneira de pensar que nem o facto de o consumo da folha de coca não ser ilegal na região nos impede de destruir o pacote antes de atravessarmos a Puna (a árida meseta andina) e cruzarmos a fronteira para o Chile em direcção ao deserto do Atacama.
(foto António Rodrigues)

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