O pavilhão de La Plata estava cheio a abarrotar de gente com cartazes, panos e faixas e bandeiras gigantes. Respirava-se um ambiente de campo de futebol, com os mesmos cânticos e igual entusiasmo. As luzes de palco reduziram-se e Andrés Ciro Martínez, o vocalista de Los Piojos, famosa banda de pop-rock argentino, trouxe para a boca de cena umas chuteiras Puma que pendurou no microfone.Não precisou de mais explicações para a multidão irromper num grito uníssono repetido: “Maradó, Maradó”. Em La Plata, nessa noite de 1999, não esteve o próprio, apenas as botas autografadas, as últimas usadas por Maradona como futebolista profissional e que este ofereceu a Andrés durante o primeiro concerto da digressão, em Buenos Aires, gravado ao vivo e editado em disco – “Ritual”.O “Maradó” dos Los Piojos não é a única canção inspirada no antigo jogador de futebol (até Charly García, figura iconoclástica do rock latino americano que foi capa da primeira edição da Rolling Stone argenina, já lhe dedicou um “Maradona Blues”), nem sequer a música é a única arte que procurou contar ou explicar o fenómeno deste homem transformado em deidade viva por força de tanto chutar uma bola.País tema na Feira de Livros de Frankfurt em 2010, a Argentina esqueceu-se, em primeira instância, de incluir Jorge Luis Borges no núcleo dessa, embora desde os primeiros esboços do programa se soubesse que haveria três grandes homenageados: Evita, Gardel e Maradona, os três maiores ícones da sua história. Sendo que Maradona é o único a entrar no panteão mitológico ainda vivo.“Ao contrário de muitos outros grandes, que se transformaram em lenda depois de deixarem a actividade”, escreveu Miguel Angel Bertotto, “Maradona tornou-se mito desde que o seu pé esquerdo – sem dúvida, o melhor pé esquerdo da história – começou a escrever os poemas mais maravilhosos que alguma vez se viram nos campos de futebol. Maradona foi mito no Argentinos Juniors – o estádio enchia-se com adeptos de outras equipas que iam apenas para o ver – e no Boca Juniors, foi mito no Nápoles – uma equipa que lutava para não descer e que converteu em campeão de tudo – e na selecção”.Continua Bertotto: “E foi mito porque inventou o golo dos sonhos. E foi mito porque os recém-nascidos começaram a chamar-se Diego. E foi mito porque dizer Maradona equivalia a dizer Argentina. Foi e é mito. E é porque dizer Maradona continua a equivaler a dizer Argentina. E é porque o seu apelido passou a ser o melhor dos adjectivos: é Gardel, dizia-se antes; é Maradona, define-se hoje”. Num documentário mais antigo que o de Kusturica, “Amando Maradona”, de Javier Vázquez, um jovem exibe a tatuagem que tem sobre o peito, na zona do coração. Está sentado à frente de um fundo negro. Puxa a camisola para cima com a mão esquerda para que se veja bem essa cabeça de Maradona parecida com a de Jesus Cristo. “Gosto mais dele que dos meus pais. Nem sabes o que sofro por ele”, confessa com os olhos marejados. “Olha como fico, até choro!”.Em “Amando Maradona” há muitas tatuagens. Uma que se repete é a de “DIOS” escrito com um número dez a substituir o “I” e o “O” da palavra. Em castelhano, a palavra deus e dez são parecidas: “Dios”/”Diez”. E Deus é Maradona ou Maradona é Deus, consoante a ordem de quem nasceu primeiro.As tatuagens são importantes, pois o ídolo/mito/Deus também as usa como afirmação política: a de Fidel Castro na perna, a das filhas nos antebraços e a mais famosa, a de Che Guevara, no ombro. Em Cuba, onde esteve a recuperar-se do excesso de peso e das maleitas provocadas pela cocaína, chegou a envergar uma paródia em formato T-shirt, onde o Che exibia a tatuagem de Diego no seu ombro.Stefano, o grande amigo napolitano de Maradona, também fez uma tatuagem do Che no ombro, baseada na mesma fotografia de Korda, fê-la, se calhar, mais em homenagem ao jogador que ao político, pois Maradona é em Nápoles também uma revolução política.Os napolitanos, desprezados nessa Itália de riqueza virada a Norte, vingaram-se de anos de humilhação com o pé esquerdo mágico desse outro condenado à nascença (ainda hoje em Villa Fiorito, o bairro de lata de Buenos Aires de onde vem, as casas são amontoados de madeira e chapa, os esgotos correm a céu aberto e os miúdos jogam descalços no mesmo campo onde Maradona deu os primeiros pontapés) que passara com mais penas que glória pela riqueza de Barcelona. Como diz a canção de Los Piojos: “Dicen que se escapó este mozo/del sueño de los sin jeta [cheta]/que a los poderosos reta [desafia]/y ataca a los más villanos/sin más armas en la mano/que un ‘diez’ en la camiseta”.Em “El Camino de San Diego”, filme de Carlos Sorín de 2006, um biscateiro pobre do interior da província de Missiones, no norte da Argentina, mete-se à estrada sem dinheiro para conseguir levar a Maradona, que se recupera numa clínica de Buenos Aires de um problema cardíaco, a raiz de uma árvore parecida com o seu ídolo.Tati, o protagonista, “acredita em Diego” porque este “nunca o deixou ficar mal e o seu êxito, para alguém que partilha a origem humilde, é quase uma vingança”, explica Sorín. Para o realizador, numa sociedade onde os perdedores têm poucas oportunidades, ídolos como Maradona “ocupam um vazio” porque “cumprem a função da esperança” e são, em si, uma forma particular de “democracia representativa”.Um herói desportivo capaz de exercer forte magnetismo sobre os seus conterrâneos, a ponto de o elegerem como metáfora dos êxitos e fracassos do seu país explica Gustavo Bernstein em “Maradona, la iconografia de la patria”. Quando Maradona “sozinho” venceu os ingleses nesse célebre jogo do Mundial de 86 – primeiro com a “mão de Deus” e depois com esse golo obra de arte/grito do Ipiranga à argentina em que parece ter fintado todos os ingleses do mundo – era uma nação inteira que se vingava desse desastre militar que foi a Guerra das Malvinas (1982).(Texto publicado na Revista NS a 25 de Outubro)
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