Que figuras são estas que cochicham, escondidas à vista por trás de palavras que não ouvimos mas nos parecem estranhamente familiares? Figuras eternamente divertidas entre jogos e conversas? Lembram os guerreiros de terracota do imperador Qin na sua dicotomia permanente real/irreal, embora as figuras de Juan Muñoz careçam de imperador a exigir-lhes rectidão e assim se entreguem mais ao vício de parecerem humanos, sem que com essa proximidade percam para a evidência todas as características. Vemo-las próximas, ao alcance dos dedos e do pensamento, sem deixarmos de sentir que a total compreensão do que vemos está para lá do nosso alcance. Juan Muñoz construía mundos capazes de nos atrair para o seu interior, de prometer aos sentidos percepção pronta, só para nos desconcertar com a densidade de sentidos, com a impermeabilidade às conclusões prontas, com uma linguagem tão próxima e distante como o sussurro de uma floresta. Porque o conhecimento não hipoteca o mistério. Amiúde, adensa-o.
A retrospectiva está no Museu de Serralves até 18 de Janeiro. (foto António Rodrigues)
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